Quais são os fatores atuais que colaboram para prolongar a carreira útil dos jogadores de futebol?

Renê Drezner e José Alberto Aguilar Cortez

Introdução

A duração da carreira de jogador de futebol profissional sempre foi muito curta quando comparada às outras profissões. Com início entre 17 e 20 anos e término por volta dos 35 ela se prolongava por 15, 20 anos, no máximo. Contudo, o que se observa atualmente é que grande número de jogadores estão desempenhando em alto nível mesmo depois dos 35 anos.

Prova disso pode ser verificada no Campeonato Brasileiro da Série A de 2018, onde identificamos aumento de 33% no número de jogadores com 35 anos, ou mais, que atuaram em, pelo menos, quatro jogos da competição. A comparação foi feita com dados obtidos no ano de 2011 do mesmo campeonato. Naquela oportunidade apenas 24 jogadores competiam com 35 anos ou mais contra 32 atletas presentes no levantamento realizado em 2018.

Embora a participação ainda se mostre pequena, quando se considera o total de jogadores na competição, se a tendência se mantiver poderá ocorrer aumento mais expressivo nas edições futuras dos principais campeonatos de futebol.

Diante desta realidade é preciso compreender o que está influenciando o prolongamento da carreira de alguns jogadores e este artigo tem como objetivo focar dois aspectos que podem explicar esta nova tendência: 1- o aprimoramento de todos os procedimentos de preparação física e 2 – mudança dos hábitos cotidianos dos jogadores.

 1 – Aprimoramento dos procedimentos de preparação física.

O aprimoramento dos procedimentos de preparação física pode estar relacionado com o prolongamento da carreira dos jogadores pela sua influência na redução do número de lesões que representa um dos principais fatores que leva ao encerramento precoce da carreira.  Geralmente os atletas que se lesionam muito carregam sequelas que, ao longo do tempo, limitarão a tolerância à sobrecarga associada aos jogos e treinamentos.

Por exemplo, quando as lesões musculares na mesma região são recorrentes, o tecido muscular fica mais rígido e menos resistente às sobrecargas devido o surgimento da fibrose. A transformação do tecido favorece, significativamente, a reincidência de lesões no local. Fato semelhante pode ocorrer nas articulações quando são submetidas a várias intervenções cirúrgicas. Fica evidente que quanto menor for o número de lesões ao longo da carreira, menores serão as sequelas e maiores as chances de o atleta mais velho prolongar a carreira.

Nos últimos anos significativa diminuição no número de lesões vem sendo observada durante a temporada competitiva e dois fatores podem ser apontados como responsáveis pela redução: a evolução do treinamento muscular específico para a prevenção e tratamento das lesões e o aprimoramento do controle da sobrecarga dos treinos e da fadiga dos jogadores.

Do ano 2000 até os dias atuais o trabalho de fortalecimento da musculatura esquelética ganhou importância entre os profissionais responsáveis pela preparação física das equipes. Treinamentos mais específicos com ênfase na estabilidade do funcionamento das articulações do quadril e joelhos, contribuíram decisivamente para a diminuição das lesões de joelho e reduziram ao mínimo as lesões pubianas. A eficiência dos tratamentos das contusões acelerou o processo de recuperação dos atletas de maneira mais eficiente e em condições mais seguras para antecipar a volta aos treinamentos e competições com menor probabilidade de se contundirem novamente.

O aprimoramento do controle da sobrecarga dos treinamentos e da fadiga dos jogadores influenciou, substancialmente, na individualização da intensidade dos treinos e, consequentemente, ajudou a evitar a exposição excessiva dos atletas às situações de risco. Atualmente, as grandes equipes possuem instrumentos e métodos de controle que permitem adequar a intensidade e o volume dos treinos às condições físicas dos jogadores. Os picos de sobrecarga e o desgaste físico podem ser detectados com antecedência para diminuição das cargas de trabalho nas sessões de treinamento e para proibir a participação em jogos visando preservar o jogador quando se identifica uma possível situação de lesão.

2 – Mudança dos hábitos cotidianos dos jogadores.

A queda do desempenho físico com o aumento da idade é inevitável, mas mudanças de hábitos podem desacelerar o processo que colabora para a aposentadoria precoce. O auge do desempenho físico da carreira do jogador de futebol é atingido por volta dos 25 anos de idade e pode se manter até os 30 anos. Após este período começa a ficar mais evidente uma queda gradual do desempenho físico que vai se acentuando com o passar dos anos. O envelhecimento é inexorável, mas a boa alimentação, o descanso, a hidratação, a abstinência ao álcool e ao fumo, interferem positivamente para prolongar o desempenho em alto nível.

O descanso é fundamental no processo de recuperação e para a longevidade da carreira. O jogador deve ser precavido e adotar um estilo de vida saudável fora do ambiente controlado do treinamento e das competições para evitar queda acentuada do desempenho físico.

A boa alimentação tem função importante para a recuperação da energia despedida nas atividades intensas dos treinos e confrontos. Os clubes oferecem a orientação de nutricionistas que controlam, de maneira muito eficiente, o cardápio e a suplementação dos jogadores nos Centros de Treinamentos e nos locais onde são hospedados nas viagens e concentrações. Alimentos saudáveis contribuem, de maneira significativa, no processo de recuperação e, em alguns casos, no controle do peso corporal. Contudo, fora do ambiente de “trabalho”, os jogadores são os responsáveis e não podem se render aos excessos durante as refeições e a falta de moderação no consumo de bebidas alcoólicas.

Finalizando é importante ressaltar o comprometimento e o profissionalismo de alguns jogadores que, por iniciativa própria, contratam fisioterapeutas e preparadores físicos, para ajudar a acelerar o processo de recuperação física e mental. Tal atitude é um sinal de mudança de concepção dos jogadores sobre a importância de investir na saúde e na qualidade de vida para prolongar o desempenho em alto nível e ser visto com mais respeito pelos dirigentes e torcedores.

Conclusão:

O constante aprimoramento dos meios de preparação física e a mudança de concepção sobre a importância de se manter um controle dos hábitos fora do ambiente de trabalho podem ser dois pontos fundamentais para o prolongamento da carreira dos jogadores de futebol.

Em um futuro próximo já será possível observar se esta geração, premiada com os avanços científicos da preparação física e dos procedimentos de recuperação e ciente da sua responsabilidade quanto aos bons hábitos de vida, conseguiu jogar em alto nível, por mais tempo, que as gerações anteriores.

Se esta previsão for confirmada teremos um significativo avanço para melhorar o desempenho e prolongar a carreira dos jogadores profissionais de futebol.

Fonte: Universidade do Futebol

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